quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Novos evangélicos ou antigos protestantes?

Por Augustus Nicodemus Lopes

A revista Época desta semana (7/8/10) traz reportagem de capa sobre a reação de diversos segmentos da igreja evangélica ao crescimento das igrejas neopentecostais. O artigo pode ser lido aqui.

O título é Os Novos Evangélicos e a capa é ilustrada com uma foto da construção de uma réplica do templo de Salomão que está sendo realizada pela Igreja Universal em São Paulo.

O artigo representa um avanço na maneira como a mídia em geral trata os evangélicos, como se fossem todos farinha do mesmo saco. E farinha imprestável. Ricardo Alexandre, o articulista, reuniu depoimentos de líderes evangélicos de diversos segmentos (incluiu um sociólogo ateu) e mostrou como todos eles concordam numa coisa: sua rejeição às doutrinas e práticas das igrejas neopentecostais e o desejo por uma mudança profunda nos atuais rumos da igreja evangélica brasileira.

Neste ponto, nada a reparar. De fato, de pentecostais a episcopais, reações contrárias a estas igrejas, consideradas como seitas por algumas denominações históricas(*), têm sido veiculadas abertamente por meio de blogs e livros. Já estava na hora da grande mídia ouví-las e entender que nem todos que fazem reuniões onde o nome de Cristo é citado são necessariamente evangélicos ou mesmo cristãos.

Eu só fiquei um pouco desconfortável com dois ou três pontos da matéria que cito aqui. Estou à vontade para isto uma vez que meu nome foi mencionado no artigo, ainda que de raspão.

1) Achei que o título do artigo na capa é um equívoco histórico, pois “novos evangélicos” se aplica mais exatamente a grupos como a IURD, Renascer e Igreja Mundial e não aos que estão reagindo a estes grupos. Eu não me considero um “novo evangélico” e sim um bem antigo, com raízes históricas na Reforma do séc. XVI e teológicas nas Escrituras Sagradas. Não tem nada de “novo” em nosso desejo de ver o antigo Evangelho ser pregado corretamente em nossa pátria. Estas seitas é que chegaram ontem. Todavia, entendo o autor. Estes grupos neopentecostais cresceram tanto e influenciaram tanto a mídia e a opinião pública que viraram o padrão. Eles é que são os “evangélicos”. Quem não é como eles e quer mudanças é visto como o novo, a novidade.

Num certo sentido foi isto que aconteceu na Reforma. Os reformadores foram acusados pelos papistas de estar trazendo “novidades” na igreja, ao pregar que a justificação era pela fé somente. Lutero e Calvino retrucaram que estavam pregando as antigas doutrinas da graça, encontradas nos Pais da Igreja e nos ensinos de Cristo e de Paulo. Eu entendo que para uma igreja como a de Roma, com vários séculos de existência, os protestantes pareciam nova seita. Mas convenhamos - considerar episcopais, presbiterianos e assembleianos como “novos evangélicos” é passar recibo para a pretensão destes grupos sectários de serem igreja evangélica legítima.

2) Também achei que pode ter ficado a impressão para leitores menos avisados que os reacionários estão unidos entre si e que se aceitam mutuamente, sem problemas. Antes fosse. Mas, nem sempre o inimigo do meu inimigo é meu aliado. Eu entendo que o foco do artigo é as igrejas da prosperidade. Mas não posso deixar de ressaltar que aqueles que se levantam contra os abusos destas seitas não são necessariamente aliados entre si. Na verdade, pode haver entre eles diferenças tão abissais como a que existe entre eles e as seitas da prosperidade.

3) Denunciar o erro dos outros não nos absolve dos nossos. Se por um lado as seitas neopentecostais espalham um falso evangelho deformado pela teologia da prosperidade, há os que também propagam um evangelho distorcido pelo liberalismo teológico e por heresias antigas. As seitas da prosperidade acabaram sendo demonizadas como a própria encarnação do anti-evangelho a ponto de, conforme o artigo de Época, se fazer necessária uma nova Reforma protestante. Não discordo deste ponto, apenas considero que o enfoque nele acaba desviando a atenção de outras linhas de pensamento dentro dos arraiais cristãos que são tão prejudiciais quanto a teologia da prosperidade e que igualmente clamam por uma Reforma.

Por exemplo: e aqueles que destroem a fé em Jesus Cristo e nos padrões morais do Cristianismo? A mídia fica indignada com o mercenarismo dos pastores destas seitas, mas aplaude os evangélicos que defendem o casamento gay, o aborto, a teoria da evolução contra o relato da criação, o relativismo moral, o sexo livre e o ecumenismo com todas as religiões. A mídia não consegue enxergar que liberalismo teológico e teologia da prosperidade são irmãos gêmeos e hipocritamente aplaude um e condena o outro.

Não me entendam mal. A reportagem está correta. É preciso deixar claro que estes grupos neopentecostais estão deturpando o Evangelho de Cristo. Porém, é tendenciosa. Retrata os neopentecostais como a raiz de todos os males no meio evangélico, esquecendo o dano feito pelos liberais, pelos defensores de outro deus e pelos libertinos.

4) Por último, acho que faltou mencionar que os chamados “novos evangélicos” concordam apenas que é preciso uma mudança, mas discordam entre si quanto ao modelo de igreja que deve ocupar o lugar desta seitas. A Reforma do séc. XVI, em que pesem as diferenças entre os reformadores principais, tinha uma mensagem relativamente uniforme e praticava um modelo de igreja que era basicamente o mesmo. É só comparar as confissões de fé escritas por presbiterianos, batistas, episcopais, congregacionais e independentes para se verificar este ponto. Já os tais “novos evangélicos”… bem, há entre eles desde os “desigrejados,” que desistiram completamente de qualquer coisa que se pareça com uma igreja, até aqueles que desejam apenas expurgar o modelo tradicional de igreja dos acréscimos indevidos em sua doutrina, culto e prática, mantendo a pregação, o batismo e a ceia e o exercício da disciplina para os membros faltosos.

E no meio ainda temos os emergentes, as igrejas em células sem liderança oficial, igrejas com liturgia inclusiva e por aí vai.

É aquela velha história. Grupos contrários se unem contra um inimigo comum e após vencê-lo começam a brigar entre si. A luta comum contra as igrejas da teologia da prosperidade está longe de representar uma nova Reforma. Quando esta luta terminar - se é que vai terminar um dia - teremos de continuar a outra, mais antiga, que é contra o liberalismo teológico fundamentalista, o relativismo moral, o pluralismo inclusivista e o libertinismo que assolam os evangélicos no Brasil muito antes de Edir Macedo abrir seu primeiro templo. Para mim, estas coisas são até mais perniciosas, pois enquanto que as seitas neopentecostais criam suas próprias igrejas e comunidades, os liberais se infiltram nas estruturas e igrejas criadas por conservadores e drenam seu vigor até deixar somente a carcaça.


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Augustus Nicodemus Lopes é pastor e teólogo calvinista.
Fonte: Púlpito Cristão

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Pureza exige coragem

Duas adolescentes, personagens de uma novela, falam sobre os planos de perder a virgindade com os namorados em um acampamento. Entrevistada por uma revista dirigida ao público jovem feminino, uma cantora famosa revela que já teve relação com outras mulheres e diz que o casamento é uma “instituição falida”. No rádio e nos videoclipes, as letras das músicas são repletas de duplo sentido, e as imagens carregadas de sensualidade.

Esse bombardeio de permissividade, fruto da crise moral da sociedade, tem alvos bem definidos: milhões de meninas, adolescentes e jovens mulheres que se deixam seduzir pelo discurso da liberalidade sexual. À procura de atenção, intimidade e afeto, elas se envolvem em relacionamentos sem limites que geram sofrimento, remorso, angústia e — a pior das consequências — distanciamento de Deus.

Para assumirmos, enquanto cristãos, a pureza nas relações é preciso MUITA coragem. Encarar de frente os "avanços" de uma sociedade permissiva e cada vez mais liberal, que vê (mas não assume) sua filosofia carregar a vida social para o buraco negro das relações vazias, é uma das tarefas mais difíceis do cristão atual. Não é fácil ir na contramão de tudo e da opinião comum. Para Jesus também não foi fácil. Mesmo assim ele encarou a parada de frente. "Ele veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam” (João 1.11). A sociedade judaica esperava um rei forte, guerreiro, para subjugar as nações dominadoras - como aconteceu com David, por exemplo. Só que o reino de Jesus era messiânico, apocalíptico e eterno, e não um mero triunfo sobre quem quer que fosse. Por isso esperam pelo Messias até hoje.

A sociedade de hoje está perdida em seus próprios conselhos. E não são nada bons. "Mesmo quando anda pelo caminho, o tolo age sem o mínimo bom senso e mostra a todos que não passa de um tolo" (Eclesiastes 10.3). E espera uma resposta nossa. E que resposta é esta?

Primeiro, não pode ser a mesma que o mundo dá. "Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus?" (Tiago 4.4).

Segundo, deve ser diferente, pura e corajosa. "A menos que me convençam, pela Escritura ou por razões claras, de que estou errado, eu permaneço constrangido pelas Escrituras. Não posso nem quero me retratar, de vez que não é seguro nem correto agir contra a consciência. Deus me ajude. Amém" (Martinho Lutero, teólogo alemão e "pai" da Reforma Protestante no século XVI).

Terceiro, deve procurar fazer a diferença através do caráter de Cristo inscrito na mente. "Para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio duma geração corrompida e perversa" (Filipenses 2.15).

Deus te abençoe!

terça-feira, 20 de julho de 2010

Meu amigo é Jesus

Hoje é o tal do Dia do Amigo. Mais uma data inventada para celebrar algo tão desvalorizado sentimentalmente, mas altamente valorizado no comércio.

Confesso que assim que abri meu e-mail esperava ver em minha caixa de entrada alguns recados. Descobri, talvez, que não tenho tantos amigos como esperava. Imagino os porquês...

Conviver comigo não é fácil. Sou alegre demais, espontâneo demais, crítico por excelência... Sei ser amigo verdadeiro, leal... Levo na cabeça mas defendo um amigo – até colegas de trabalho. Mas também sou ranzinza, perco o humor com facilidade se pisarem no meu calo... Aprendi com a vida a dar nota 10 para as pessoas, e caso vacilem eu desconto pontos – ou todos eles! Sou do tipo que ao olhar para alguém e ver algo que não me agrada, pronto! Jamais me aproximarei daquela pessoa. Portanto, penso eu, não sou o tipo de pessoa que outras enviam e-mails de amizade. Afinal, esse papinho de Dia do Amigo nunca me pegou. Um monte de gente manda mensagens eletrônicas ou troca presentes apenas para agradar ou “ficar bem na fita”, por interesse mesmo!

Relacionar-se com alguém, a ponto de chama-la de amigo, é algo muito mais profundo. É mais que trocar segredos. É mais do que cochichar pelos cantos. É mais do que almoçarmos juntos. Ser amigo é projetar na outra pessoa sentimentos que você tem por si mesmo. Ou seja: você quer para o outro o mesmo que deseja para você mesmo, que sente por si. Com o passar dos anos, com as agressões da vida, algumas delas precipitadas por mim mesmo, aprendi que meus amigos são realmente poucos. Já dizia a minha avó: amigos cabem apenas em uma das mãos. Ela tinha uma amiga de cerca de 60 anos! Pegou-a para ajudar na criação, tratou-a e a encaminhou para a vida. Com isso, seus laços se uniram, numa cumplicidade quase de mãe para filha. Que amizade!

Diante disso, juntando todas as experiências, aprendi nessa escola, que é a vida, que AMIGO, mesmo, é Jesus. Esse, sim, deixou tudo que tinha por amor a mim. Não pediu barganhas. Não me traiu. Nunca fofocou contra mim. Jamais pensou mal de mim. Pelo contrário: projetou em mim o que Ele sentia por si mesmo, essência de Sua vida: amor. Outro "amigo" é minha esposa. Essa, assim como Jesus, me ama como sou e não pede outra coisa em troca senão o mesmo sentimento. E eu dou! rsrsrs

Como falta amor aos “amigos” de hoje! Num dia são amigos; no outro, apunhalam por trás. Hoje falam bem de você; amanhã, sem motivo aparente, inventam estórias (com “E” mesmo, pois são fábulas da carochinha) sobre você. Envenenam o ambiente em seu entorno, a ponto de sentir-se a pessoa mais rejeitada do mundo. Que “amizade” é essa? E aqui não é papo de recalcado, ou de alguém que levou na cabeça – isso, de fato, aconteceu inúmeras vezes – mas é a visão de alguém que amadurece a cada dia na escola da vida. E a maior lição é essa: quem tem dois ouvidos e uma boca só pode ser para falar menos e ouvir mais. E ouvir, sem dúvida, é algo que falta nas amizades de hoje.

Jesus me ouviu. Sabia que eu andava errante. Mesmo assim Ele me amou. Entregou sua vida por mim. Confiou a mim a salvação que Seu pai, Deus, o Pai “maiúsculo”, lhe deu. Jamais pensou em retirá-la, porque Ele não pode se contradizer; logo, se Ele deu, de graça, pela Graça, não vai tirá-la, traindo-me num ato baixo. Mesmo quando vacilei e, nas minhas ações no transcorrer da vida, fiz algo que O desagradou, jamais pensou em abandonar-me. Esse é meu amigo mesmo. Ninguém é como Ele. E o pior para nós, mortais, que estamos nessa gigante – e às vezes parecendo interminável – escola da vida, é que Ele deixou tudo isso e muito mais como lições, como exemplos para serem seguidos diariamente “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Filipenses 2.5). Mas, preferimos colocar a culpa no pecado, em Adão, no diabo, na samambaia, na favela, no dinheiro, “nos cambau”, para não seguirmos o que Ele nos deixou. Não pensamos que estamos errando, fazemos sob a desculpa de que “somos todos pecadores, amém!?”. Não há mais aquela relação simples, inocente mesmo, onde pessoas confidenciam coisas. Pelo contrário! Se você conta algo para alguém, logo está na boca do povo. E no meio da Igreja (instituição) e da “igreja” (reunião de crentes). Onde vamos parar!? Dizemos que os crentes são a luz do mundo... Como?

Somos piores que os não-crentes! Eles, ao menos, fazem porque não têm parâmetros para seguir; nós, ao contrário, fazemos mesmo sabendo que Jesus não o faria, e que Deus não se agrada. Afinal, temos a desculpa perfeita...