SER PASTOR é estar inserido no plano de Deus para a redenção da humanidade. Deus não tem outro plano: nem enviar seus anjos, nem dispor de um imenso amplificador para que Sua própria voz transmita com perfeição, e sem distorções, Sua palavra de redenção[1]. Seu plano consistiu no envio de homens - "Houve um homem enviado de Deus cujo nome era João..." (João 1:6).
SER PASTOR é ser auxiliar de Cristo, a "remar" no barco de Seu Reino, sob suas ordens; não é ser dono da igreja, nem definidor de seu destino. É, sim, estar com Cristo, para assisti-lo. E é ser mordomo, administrador responsável dos mistérios de Deus, Evangelho que por séculos esteve oculto dos homens e que se manifestou em Cristo.
SER PASTOR é ser arauto que solene, grave e dignamente anuncia os decretos do Rei; é ser profeta a falar da parte do Senhor; é ser sacerdote, - por que não? - a abraçar as aflições e as dores da humanidade e levá-las à presença do Sumo Sacerdote, Jesus Cristo.
SER PASTOR é ser mestre, a retirar das despensas de Deus a palavra que instrui, informa, transforma e orienta para o tempo e a eternidade.
SER PASTOR é ser conselheiro pronto a ouvir, compreender e ajudar; e amigo que tem a palavra oportuna e veraz, a mediar o bálsamo divino para corações feridos.
SER PASTOR é ser líder do povo de Deus, que aparece menos pela autoridade que reivindica, pelo domínio que pretende exercer, e mais, muito mais, pelo caráter, pela integridade, pelo exemplo.(1Ped. 5:2, 3).
SER PASTOR não é ser o "faz-tudo", o "manda-chuvas", o "super-astro"[2] a brilhar na ribalta de uma tribuna sagrada que se transforma em passarela de exibicionismo e vaidade. Não. É ser "preparador", "treinador", "habilitador" do povo de Deus para que este sirva, edifique a igreja, promova o Reino de Deus no mundo, cresça enquanto serve, sirva enquanto amadurece e tem por padrão a excelência da estatura do varão perfeito - Jesus Cristo.
SER PASTOR não é ser super-homem ou semideus. É ser homem, comum, normal, mas sobrenaturalmente habilitado para servir ao povo de Deus. É ser homem de verdade e da verdade. É ter os pés no chão do sofrimento, das necessidades e desafios humanos e a cabeça no céu das provisões divinas para um mundo carente.
SER PASTOR é ser capaz de no mesmo dia sorrir e chorar, celebrar a vida e consolar na morte; é ter coração simples com de uma criança para perdoar, e forte como de um gigante, para a sucessão muita vez pavorosa, de experiências traumatizantes.
SER PASTOR é viver no tempo, a edificar para a eternidade; é ser construtor de pontes, pelo mistério e ministério da Palavra, entre o pecador perdido e o Salvador do mundo; entre pessoas que se estranham e agridem-se; entre o sem sentido da História e o sentido que a Palavra revelada aponta; entre as trevas da ignorância espiritual e a luz do Evangelho da graça; é ser embaixador, a proclamar para os homens de todos os tempos: "Reconciliai-vos com Deus", por isso que a ele foi entregue o ministério e nele foi posta a Palavra da reconciliação.
SER PASTOR é ser um paradoxo vivo: é ser afligido e estar sempre alegre; é ser pobre e enriquecer a muitos, e parecer nada possuir, e tudo possuir; é vida que se queima no altar de Deus, entendendo como ventura maior viver e servir.
SER PASTOR é participar de uma obra excelente, bela, que dura, que transcende os limites do espaço e do tempo, que glorifica a Deus; é, por isso, o mais belo dos ofícios, a mais gloriosa das missões, o mais compensador dos sacrifícios.
Ser Pastor requer, entretanto, para que seja experiência venturosa, que o homem de Deus viva no centro da vontade do Senhor e tenha a dedicação exclusiva do soldado, a disciplina rigorosa do atleta, a diligência e perseverança do lavrador, a aplicação diuturna do obreiro a dividir bem a Palavra, a abrir caminhos retos para o caminhar seguro e firme do povo de Deus sob seu cuidado e liderança.
Sejamos Pastores assim, conforme o coração de Deus, e como mordomos fiéis da Palavra eterna.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Homenagem
Tem gente que sentimos falta quando parte. São pessoas queridas, empáticas, amigas; outros nem tanto... Mas, deixaram um rastro positivo enquanto viveram. Deixarão saudades. Entretanto, tem outras cuja ausência fará diferença. E muita. Sua falta será como uma lacuna impreenchível. Uma dessas pessoas é o meu padrinho, Paulo Roberto Schiatti. Sua partida ainda dói em nossos corações. A família sentiu o baque. Os amigos sentiram a perda repentina. Contudo, como ele mesmo dizia, “...só quero alegria depois da minha partida...”.
E era isso que ele queria deixar mesmo. Sua alegria constante era uma marca pessoal. Ninguém conseguia ser tão carismático tão facilmente. Basta ver a quantidade de pessoas que prestaram suas últimas homenagens... Só ele conseguia. Não tinha “tempo ruim”, nem tristezas ou até mesmo as últimas dores que sentia. No sábado anterior à sua partida, estive com ele e mesmo com dores fez as suas piadas habituais. Lembro-me que no último carnaval não viajamos, eu e Simone. Ele e minha madrinha nos chamaram para passar o feriadão com eles. Afinal, seria muito churrasco e diversão. E foi mesmo. Essa era outra característica dele: sua casa era para receber, e bem, as pessoas. Com ele não tinha aquela mesquinharia de que o melhor era só para ele; seu prazer estava justamente no contrário, ou seja, ver seus parentes e amigos tão satisfeitos quanto ele.
Meu padrinho era mais que um tio. Não que meus tios, os quais os amo, sejam menos que ele foi. Não é isso. Ele era diferente. Em tudo. Além das características que citei acima, ele era amoroso. Chamava-me, por vezes, de “outro filo”, desde a saída dos meus dois primos, seus “filos” mesmo, para trabalharem nos extremos do nosso país. E esses eram sua grande paixão. Porque amor foi a minha madrinha. Disso eu falo depois. Seu amor por eles era tamanho que bastava uma ligação dizendo que chegariam para a casa virar um grande clube, no bom sentido. Ele preparava a piscina, comprava gelo e as bebidas, deixava a carne no esquema – que só ele sabia fazer e fazia questão disso – e curtia os bons e, infelizmente, poucos momentos com seus “filos”. Quantos brinquedos, roupas, festas, esforços para dar o melhor aos meus primos; enfim, tanta coisa que ele fez por amor. Amor que o fez insistir, sei lá quanto tempo, para namorar minha madrinha. Chegava a ser chato, diziam meu e pai e tios. Mas ele conseguiu seu amor eterno. E a partir daí começou uma bela história, que nós vimos crescer, dar frutos e ser brevemente interrompida.
A lição principal que ele nos deixa, e é o motivador deste texto, pois sem isso não seria possível escrever nada, é o amor pela vida, em estar perto de quem amamos e poder serví-los da melhor maneira possível. Sem amor, não amamos. Sequer nos amamos. E a Palavra só confirma isso: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”, ou ainda “Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu filho para todo aquele que nEle crer não pereça, mas tenha a vida eterna”; e mais “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor... nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha”.
É difícil resumir uma vida tão longa em poucas linhas. São muitos fatos, muitas histórias, muito tempo para colocar. Mas o importante é que sua vida, sua alegria, seu amor, ficará gravado em nossas mentes e corações até o fim. E que sua lição de amar, de viver e sua alegria, seu legado como um todo, seja inspiração para nós. Até breve, padrinho!
E era isso que ele queria deixar mesmo. Sua alegria constante era uma marca pessoal. Ninguém conseguia ser tão carismático tão facilmente. Basta ver a quantidade de pessoas que prestaram suas últimas homenagens... Só ele conseguia. Não tinha “tempo ruim”, nem tristezas ou até mesmo as últimas dores que sentia. No sábado anterior à sua partida, estive com ele e mesmo com dores fez as suas piadas habituais. Lembro-me que no último carnaval não viajamos, eu e Simone. Ele e minha madrinha nos chamaram para passar o feriadão com eles. Afinal, seria muito churrasco e diversão. E foi mesmo. Essa era outra característica dele: sua casa era para receber, e bem, as pessoas. Com ele não tinha aquela mesquinharia de que o melhor era só para ele; seu prazer estava justamente no contrário, ou seja, ver seus parentes e amigos tão satisfeitos quanto ele.
Meu padrinho era mais que um tio. Não que meus tios, os quais os amo, sejam menos que ele foi. Não é isso. Ele era diferente. Em tudo. Além das características que citei acima, ele era amoroso. Chamava-me, por vezes, de “outro filo”, desde a saída dos meus dois primos, seus “filos” mesmo, para trabalharem nos extremos do nosso país. E esses eram sua grande paixão. Porque amor foi a minha madrinha. Disso eu falo depois. Seu amor por eles era tamanho que bastava uma ligação dizendo que chegariam para a casa virar um grande clube, no bom sentido. Ele preparava a piscina, comprava gelo e as bebidas, deixava a carne no esquema – que só ele sabia fazer e fazia questão disso – e curtia os bons e, infelizmente, poucos momentos com seus “filos”. Quantos brinquedos, roupas, festas, esforços para dar o melhor aos meus primos; enfim, tanta coisa que ele fez por amor. Amor que o fez insistir, sei lá quanto tempo, para namorar minha madrinha. Chegava a ser chato, diziam meu e pai e tios. Mas ele conseguiu seu amor eterno. E a partir daí começou uma bela história, que nós vimos crescer, dar frutos e ser brevemente interrompida.
A lição principal que ele nos deixa, e é o motivador deste texto, pois sem isso não seria possível escrever nada, é o amor pela vida, em estar perto de quem amamos e poder serví-los da melhor maneira possível. Sem amor, não amamos. Sequer nos amamos. E a Palavra só confirma isso: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”, ou ainda “Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu filho para todo aquele que nEle crer não pereça, mas tenha a vida eterna”; e mais “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor... nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha”.
É difícil resumir uma vida tão longa em poucas linhas. São muitos fatos, muitas histórias, muito tempo para colocar. Mas o importante é que sua vida, sua alegria, seu amor, ficará gravado em nossas mentes e corações até o fim. E que sua lição de amar, de viver e sua alegria, seu legado como um todo, seja inspiração para nós. Até breve, padrinho!
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Pr. Lourenço Stelio Rega: Seminário para formar pastores ou teólogos?
A discussão superada na década de 90 está voltando. Sem dúvida entendo ser uma questão importante, mas também precisamos considerar alguns detalhes.
(1) Depois de mais de 32 anos de ministério – tanto na igreja local, quanto na educação teológica (neste caso quase 34 anos) como na vida denominacional – tenho aprendido que não adianta nada conhecermos bem Teologia e exegese se não pudermos atender o povo, as ovelhas;
(2) Mas tenho aprendido também que, para atender às ovelhas, precisamos de conteúdo – conhecimento teológico, bíblico, psicológico, sociológico, filosófico, etc – senão o ministro não vai conseguir ter fundamentos para fazer com qualidade o que for preciso. Será preciso também interpretar a cultura e ideologia deste mundo para poder preparar as ovelhas a sobreviver na vida cotidiana como verdadeiras testemunhas em palavra e vida transformada;
(3) Em outras palavras, aprendi que esta questão é como os dois trilhos da estrada de ferro, onde um pára, a viagem pára;
(4) Enfim, precisamos aprender que teoria e prática andam juntas. Precisamos formar líderes que sejam líderes na prática, mas que também pensem teológica e biblicamente;
(5) Aqui seguem, para os dois lados, alguns ditados sobre o assunto:
«A teoria sem a prática é utopia, a prática sem a teoria é rotina.»
«A teoria sem a prática é estéril e mero jogo intelectual, mas a prática sem a teoria é cega e ingênua.»
«A teoria sem a prática é ideologia; a prática sem a teoria é empirismo cego.»
«A teoria sem a prática vira “verbalismo”, assim como a prática sem teoria, vira ativismo. No entanto, quando se une a prática com a teoria tem-se a práxis, a ação criadora e modificadora da realidade.» (Paulo Freire)
Educação integral: na Teológica de São Paulo, o assunto sobre “formar pastores ou teólogos” vai mais longe, pois entendemos que não há como fazer educação teológica sem que o modelo seja o da formação integral. O modelo que adotamos de educação integral começou a ser efetivamente implantado no final da década de 90 e tem pressupostos calcados na teologia bíblica que se expressam no ideário de Lausanne I (1974), que considera a missão integral, mas também o evangelho todo para o homem todo, isto é integral. Assim, o nosso sistema educacional trabalha com o conhecimento e sua construção pelo aluno (SABER/REFLETIR), pela formação ministerial prática (FAZER), pelo preparo da vida emocional do aluno para que tenha condições ideais no exercício ministerial (SENTIR – um líder equilibrado terá condições de enfrentar os espinhos de sua atividade ministerial), pelo preparo do aluno para o relacionamento humano (CONVIVER – parte fundamental no exercício do ministério). Além de tudo isso, consideramos que a integridade do caráter (SER) do aluno é componente prioritário, pois líder deve ser modelo de vida, antes de se entregar à liderança do povo. Com isso, descobrimos que a sala de aula deixou de ser o lugar único e privilegiado de ensino-aprendizagem – até os guichês de atendimento se tornaram “sala de aula” –, de modo que isso requereu a capacitação não apenas de professores, mas também dos funcionários para a concretização deste modelo de educação.
Faculdade Teológica forma pastor ou teólogo? Será preciso entender que nenhum seminário ou faculdade teológica forma teólogo, nem pastor. Aliás, há muito bacharel em teologia que se auto-denomina teólogo. Teólogo é quem escreve, pensa e vive teologia, reflete sobre a sua aplicação no mundo e na vivência da igreja. Pastor é um dom/função, que necessita da formação como instrumento para seu ministério. O curso será útil para dar ferramentas para o teólogo ou para o ministro. No caso da Teológica de São Paulo precisamos ainda lembrar que para se formar na graduação, o aluno tem de cumprir 300 horas de estágios práticos. Me admira muito que ainda tenho ouvido pessoas que falam que nossa Faculdade é só acadêmica!
Os mestres e doutores ainda são crentes? No começo do semestre passado eu e o Pr. Alberto Kenji Yamabuchi estávamos na sede da Convenção Batista Brasileira no Rio de Janeiro participando de uma reunião do Centro de Altos Estudos da CBB e eu lhe lembrei que há poucas horas ele havia deixado de ser crente, piedoso, homem de oração, consagrado e passara a ser incrédulo, impenitente, secularista e profano. Ele me olhou assustado e negou tudo isso e me perguntou por que eu havia dito tudo aquilo. Eu expliquei que, no dia anterior, ele conquistara o seu grau de Doutor em Ciências da Religião (na banca de arguição estávamos em dois batistas – eu e o Silas Molochenco) e o pior é que ele foi aprovado com louvor, assim ele se tornara mesmo incrédulo e profano (??), pelo menos na conceituação que já ouvi de alguns colegas que acreditam que assim que conquistamos nosso grau de mestre ou doutor nos tornamos tudo aquilo. Concordo de fato que há alguns (poucos) casos que coincidem com esse diagnóstico, mas a grande maioria de mestres e doutores em nossos seminários não tiveram essa experiência de desespiritualização da vida cristã. Aqui na Teológica nossos mestres e doutores continuam crentes, crêem na e pregam a Bíblia, continuam espirituais e piedosos. Na minha vida tenho vivido esta experiência, confesso que a minha dependência a Deus está a cada dia mais aprofundada, o temor a Deus sempre em destaque e a convicção de minha vocação ministerial mais refinada e focalizada. Me lembro que um líder uma vez me disse que eu tinha de parar de falar que a nossa Teológica tinha tantos mestres e doutores, pois os pastores estavam ficando incomodados com aquilo. Confesso que duvido disso, pois o que tenho visto é que colegas se sentem gratificados em que nossos professores estejam conquistando estes degraus e continuam firmes na fé.
A igreja também precisa de teólogos? Tendo em vista nossas raízes ligadas na outra América, herdamos o foco de pragmatizarmos o ministério e a vida da igreja, acreditando que a igreja é o reino de Deus e, pior ainda, acreditando que o Cristianismo se resume em atividades eclesiásticas. Creio que essa seja a principal causa de se levantar a questão “formar pastores ou teólogos?” Como já expliquei no começo do artigo, não há como formar pastores ou ministros sem dar-lhe conteúdo teológico. É como ensinar um médico a aplicar injeção, sem dar-lhe o conteúdo (medicamento que vai na seringa). Por outro lado, a igreja, que tem sido transformada num fim em si mesma, parece-me que tem se tornado num gueto de fim de semana ou um instrumento “fabril” de manufaturar convertidos. Mas Jesus nos deixou a missão de sermos sal da terra e luz do mundo, portanto a igreja (como instituição e como membrezia) precisa ser expressiva em seu entorno, como os cristãos primitivos que onde passavam “transtornavam” o ambiente não apenas com a pregação (kerygma), mas com a sua comunhão (koinonia) manifesta e a vida de seus membros (matyreo – testemunhas de vida e não apenas de pregação ou palavra). Uma boa parte das igrejas já não cumprem mais este papel. Como ser sal da terra e luz do mundo sem compreender o próprio mundo, o espírito de época, as forças ideológicas que governam as pessoas e o mundo? Aqui entra o papel dos teólogos – interpretar o mundo à luz da Palavra de Deus e encontrar respostas para que as igrejas possam ser como que a “encarnação” de Cristo em seu entorno. Mas o que tem acontecido com os teólogos? Ou eles estão isolados nos seminários ou entrincheirados. Os primeiros descobriram que seu discurso não tem efeito nas igrejas, então, preferiam se “isolar no mosteiro” e o seu relacionamento mais forte acaba sendo no meio editorial. O segundo grupo (os da trincheira), acabam se amargurando pela rejeição que sofrem dos líderes-práticos, que acabam se tornando críticos-ácidos contra as igrejas e denominação. Se entrincheiraram transformando seu ministério-magisterial numa ação belicosa.
Precisamos conquistar os primeiros para que possam servir às igrejas e orar pelos segundos para que revejam suas prioridades e estratégias. Recentemente os pastores de São Paulo precisaram se manifestar sobre a homofobia e o infanticídio indígena. Nos pediram socorro e pudemos produzir manifestos que foram publicados e encaminhado às autoridades. São os teólogos à serviço da igreja, dando-lhe suporte para reagir a este mundo sem Deus.
Enfim, em vez de considerar componentes antagônicos ou nutrir preconceitos, desafio você a repensar a pergunta inicial considerando o que aqui foi possível propor. Um abraço a todos – pastores e teólogos.
***
Lourenço Stelio Rega é Mestre em Teologia, Mestre em Educação, Doutor em Ciências da Religião e diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo.
Fonte: Apologia do Cristianismo/http://ratioetfide.blogspot.com/
(1) Depois de mais de 32 anos de ministério – tanto na igreja local, quanto na educação teológica (neste caso quase 34 anos) como na vida denominacional – tenho aprendido que não adianta nada conhecermos bem Teologia e exegese se não pudermos atender o povo, as ovelhas;
(2) Mas tenho aprendido também que, para atender às ovelhas, precisamos de conteúdo – conhecimento teológico, bíblico, psicológico, sociológico, filosófico, etc – senão o ministro não vai conseguir ter fundamentos para fazer com qualidade o que for preciso. Será preciso também interpretar a cultura e ideologia deste mundo para poder preparar as ovelhas a sobreviver na vida cotidiana como verdadeiras testemunhas em palavra e vida transformada;
(3) Em outras palavras, aprendi que esta questão é como os dois trilhos da estrada de ferro, onde um pára, a viagem pára;
(4) Enfim, precisamos aprender que teoria e prática andam juntas. Precisamos formar líderes que sejam líderes na prática, mas que também pensem teológica e biblicamente;
(5) Aqui seguem, para os dois lados, alguns ditados sobre o assunto:
«A teoria sem a prática é utopia, a prática sem a teoria é rotina.»
«A teoria sem a prática é estéril e mero jogo intelectual, mas a prática sem a teoria é cega e ingênua.»
«A teoria sem a prática é ideologia; a prática sem a teoria é empirismo cego.»
«A teoria sem a prática vira “verbalismo”, assim como a prática sem teoria, vira ativismo. No entanto, quando se une a prática com a teoria tem-se a práxis, a ação criadora e modificadora da realidade.» (Paulo Freire)
Educação integral: na Teológica de São Paulo, o assunto sobre “formar pastores ou teólogos” vai mais longe, pois entendemos que não há como fazer educação teológica sem que o modelo seja o da formação integral. O modelo que adotamos de educação integral começou a ser efetivamente implantado no final da década de 90 e tem pressupostos calcados na teologia bíblica que se expressam no ideário de Lausanne I (1974), que considera a missão integral, mas também o evangelho todo para o homem todo, isto é integral. Assim, o nosso sistema educacional trabalha com o conhecimento e sua construção pelo aluno (SABER/REFLETIR), pela formação ministerial prática (FAZER), pelo preparo da vida emocional do aluno para que tenha condições ideais no exercício ministerial (SENTIR – um líder equilibrado terá condições de enfrentar os espinhos de sua atividade ministerial), pelo preparo do aluno para o relacionamento humano (CONVIVER – parte fundamental no exercício do ministério). Além de tudo isso, consideramos que a integridade do caráter (SER) do aluno é componente prioritário, pois líder deve ser modelo de vida, antes de se entregar à liderança do povo. Com isso, descobrimos que a sala de aula deixou de ser o lugar único e privilegiado de ensino-aprendizagem – até os guichês de atendimento se tornaram “sala de aula” –, de modo que isso requereu a capacitação não apenas de professores, mas também dos funcionários para a concretização deste modelo de educação.
Faculdade Teológica forma pastor ou teólogo? Será preciso entender que nenhum seminário ou faculdade teológica forma teólogo, nem pastor. Aliás, há muito bacharel em teologia que se auto-denomina teólogo. Teólogo é quem escreve, pensa e vive teologia, reflete sobre a sua aplicação no mundo e na vivência da igreja. Pastor é um dom/função, que necessita da formação como instrumento para seu ministério. O curso será útil para dar ferramentas para o teólogo ou para o ministro. No caso da Teológica de São Paulo precisamos ainda lembrar que para se formar na graduação, o aluno tem de cumprir 300 horas de estágios práticos. Me admira muito que ainda tenho ouvido pessoas que falam que nossa Faculdade é só acadêmica!
Os mestres e doutores ainda são crentes? No começo do semestre passado eu e o Pr. Alberto Kenji Yamabuchi estávamos na sede da Convenção Batista Brasileira no Rio de Janeiro participando de uma reunião do Centro de Altos Estudos da CBB e eu lhe lembrei que há poucas horas ele havia deixado de ser crente, piedoso, homem de oração, consagrado e passara a ser incrédulo, impenitente, secularista e profano. Ele me olhou assustado e negou tudo isso e me perguntou por que eu havia dito tudo aquilo. Eu expliquei que, no dia anterior, ele conquistara o seu grau de Doutor em Ciências da Religião (na banca de arguição estávamos em dois batistas – eu e o Silas Molochenco) e o pior é que ele foi aprovado com louvor, assim ele se tornara mesmo incrédulo e profano (??), pelo menos na conceituação que já ouvi de alguns colegas que acreditam que assim que conquistamos nosso grau de mestre ou doutor nos tornamos tudo aquilo. Concordo de fato que há alguns (poucos) casos que coincidem com esse diagnóstico, mas a grande maioria de mestres e doutores em nossos seminários não tiveram essa experiência de desespiritualização da vida cristã. Aqui na Teológica nossos mestres e doutores continuam crentes, crêem na e pregam a Bíblia, continuam espirituais e piedosos. Na minha vida tenho vivido esta experiência, confesso que a minha dependência a Deus está a cada dia mais aprofundada, o temor a Deus sempre em destaque e a convicção de minha vocação ministerial mais refinada e focalizada. Me lembro que um líder uma vez me disse que eu tinha de parar de falar que a nossa Teológica tinha tantos mestres e doutores, pois os pastores estavam ficando incomodados com aquilo. Confesso que duvido disso, pois o que tenho visto é que colegas se sentem gratificados em que nossos professores estejam conquistando estes degraus e continuam firmes na fé.
A igreja também precisa de teólogos? Tendo em vista nossas raízes ligadas na outra América, herdamos o foco de pragmatizarmos o ministério e a vida da igreja, acreditando que a igreja é o reino de Deus e, pior ainda, acreditando que o Cristianismo se resume em atividades eclesiásticas. Creio que essa seja a principal causa de se levantar a questão “formar pastores ou teólogos?” Como já expliquei no começo do artigo, não há como formar pastores ou ministros sem dar-lhe conteúdo teológico. É como ensinar um médico a aplicar injeção, sem dar-lhe o conteúdo (medicamento que vai na seringa). Por outro lado, a igreja, que tem sido transformada num fim em si mesma, parece-me que tem se tornado num gueto de fim de semana ou um instrumento “fabril” de manufaturar convertidos. Mas Jesus nos deixou a missão de sermos sal da terra e luz do mundo, portanto a igreja (como instituição e como membrezia) precisa ser expressiva em seu entorno, como os cristãos primitivos que onde passavam “transtornavam” o ambiente não apenas com a pregação (kerygma), mas com a sua comunhão (koinonia) manifesta e a vida de seus membros (matyreo – testemunhas de vida e não apenas de pregação ou palavra). Uma boa parte das igrejas já não cumprem mais este papel. Como ser sal da terra e luz do mundo sem compreender o próprio mundo, o espírito de época, as forças ideológicas que governam as pessoas e o mundo? Aqui entra o papel dos teólogos – interpretar o mundo à luz da Palavra de Deus e encontrar respostas para que as igrejas possam ser como que a “encarnação” de Cristo em seu entorno. Mas o que tem acontecido com os teólogos? Ou eles estão isolados nos seminários ou entrincheirados. Os primeiros descobriram que seu discurso não tem efeito nas igrejas, então, preferiam se “isolar no mosteiro” e o seu relacionamento mais forte acaba sendo no meio editorial. O segundo grupo (os da trincheira), acabam se amargurando pela rejeição que sofrem dos líderes-práticos, que acabam se tornando críticos-ácidos contra as igrejas e denominação. Se entrincheiraram transformando seu ministério-magisterial numa ação belicosa.
Precisamos conquistar os primeiros para que possam servir às igrejas e orar pelos segundos para que revejam suas prioridades e estratégias. Recentemente os pastores de São Paulo precisaram se manifestar sobre a homofobia e o infanticídio indígena. Nos pediram socorro e pudemos produzir manifestos que foram publicados e encaminhado às autoridades. São os teólogos à serviço da igreja, dando-lhe suporte para reagir a este mundo sem Deus.
Enfim, em vez de considerar componentes antagônicos ou nutrir preconceitos, desafio você a repensar a pergunta inicial considerando o que aqui foi possível propor. Um abraço a todos – pastores e teólogos.
***
Lourenço Stelio Rega é Mestre em Teologia, Mestre em Educação, Doutor em Ciências da Religião e diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo.
Fonte: Apologia do Cristianismo/http://ratioetfide.blogspot.com/
Assinar:
Postagens (Atom)